Série: Do RPA ao Silício — Ficção com Fundo de Verdade — Capítulo 03
Da Wipro ao Fim do VBA: A Morte da Automação Burra
Em 2019, eu era apenas mais um engenheiro tentando domar o caos do ecossistema corporativo. Entregando soluções críticas em VBA na Wipro para colossos industriais como Johnson & Johnson e Nokia, eu via de perto a dor real de construir e manter automações determinísticas num mar de incertezas.
Hoje, olhando para trás, parece ficção — mas foi exatamente assim que a automação burra começou a morrer.
O Custo de Manutenção e a Era das Fragatas
Naquela época, ferramentas de RPA como o Automation Anywhere e o UiPath eram as grandes promessas da indústria. Mas na prática, elas operavam como verdadeiras fragatas: pesadas, custosas e difíceis de manobrar em um oceano que começava a exigir a velocidade de uma lancha de interceptação.
Mapear cada elemento da tela com XPath complexo e pagar licenças caríssimas não impedia o inevitável: tudo desmoronava com uma simples atualização de layout. O desenvolvedor não criava soluções inteligentes; ele virava um bombeiro de automação, apagando incêndios operacionais gerados por fragilidades sistêmicas contínuas — um padrão de colapso de infraestrutura que viríamos a dissecar estruturalmente na Série Blindagem de Sistemas.
Mas o verdadeiro colapso não estava nas grandes plataformas de RPA de prateleira — estava no coração da operação diária: o trio SAP, Excel e VBA.
O Combo da Dor: SAP + Excel + VBA
Vamos personificar essa dor. Imagine o Rafael, um engenheiro fiscal sênior. O trabalho dele era realizar análises preditivas de taxas de imposto no Brasil, processando planilhas monstruosas exportadas do SAP através de scripts engessados em VBA.
O SAP cuspia relatórios de 40 mil linhas como se fossem entulho digital. O Excel engasgava, consumindo até o último megabyte de memória RAM. E o VBA tentava sobreviver à carga de processamento como um motor de fusca puxando uma carreta pesada.
Não havia inteligência, apenas esperança condicional. Era 14h17 de uma terça-feira de fechamento quando o layout do relatório SAP mudou silenciosamente a ordem de duas colunas. O script rígido do VBA rodou às cegas e travou. O fiscal ligou cobrando a análise. O gerente pressionou pelo resultado. E o Rafael sentiu o peso no estômago: a madrugada seria longa, depurando linha a linha de um código espaguete apenas para consertar o que já havia nascido quebrado.
A Morte Econômica do RPA Rígido
A arquitetura determinística de automação perdeu o sentido econômico e estrutural diante dos agentes generativos. O que está pulverizando as velhas ferramentas não é apenas a capacidade superficial da IA de gerar código mais rápido, mas o fato dela interpretar o contexto e ajustar suas ações com base em modelos probabilísticos robustos.
Hoje, processos de extração e higienização que demandavam dias de scripting rígido e noites mal dormidas podem ser estruturados com resiliência em minutos:
O Declínio do VBA: A linguagem perde relevância rapidamente em cenários onde a IA assume a análise bruta. Você fornece a planilha suja e dá a instrução em linguagem natural. A IA gera o código Python dinâmico, higieniza as anomalias lógicas e entrega o relatório formatado.
Agentes de Integração Direta: A IA pode integrar-se ao SAP via APIs e conectores nativos, quando disponíveis, absorvendo mudanças estruturais sem quebrar o pipeline e entregando alertas de inconformidade direto no dashboard da diretoria executiva.
O profissional que antes passava oito horas corrigindo loops infinitos de VBA agora atua na estratégia: audita as inferências da IA, valida parâmetros tributários de alta complexidade e foca no planejamento que realmente protege o caixa da empresa.
A Despedida
Testemunhamos o declínio absoluto da automação rígida e o surgimento irreversível da automação cognitiva.
O Rafael não sente nenhuma saudade do VBA. E eu também não.
A automação burra morreu — e nós finalmente fomos libertados para trabalhar com a verdadeira engenharia.
Dicionário de Lousa
- Batch (Lote): Modo de processamento de dados onde um conjunto de tarefas ou transações é acumulado e executado de forma sequencial automática, sem intervenção humana contínua.
- Dashboard: Painel visual de controle e monitoramento de indicadores de desempenho, geralmente usado para abstrair a complexidade de bancos de dados legados em uma interface consumível por humanos.
- Legacy (Legado): Código ou tecnologia antiga, muitas vezes complexa e sem documentação, que continua a funcionar por ser crítica para a sobrevivência da organização.
- Pipeline: Estrutura automatizada e sequencial de processos de software responsável por transportar, transformar ou implantar dados e códigos de um ponto a outro. "Quebrar o pipeline" significa interromper catastroficamente esse fluxo de entrega.
- VBA (Visual Basic for Applications): Linguagem de programação criada pela Microsoft e integrada às planilhas do Excel para criar macros de automação de planilhas locais.
- Wipro: Uma das maiores empresas multinacionais de serviços de tecnologia da informação do mundo, especializada em consultoria de processos de negócios.